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Conversámos com a Jup do Bairro sobre o corpo ser mente e a mente ser corpo, sobre o poder do coletivo, sobre lutar e sentir e sobre o que é “CORPO SEM JUÍZO”.

© Isac Oliveira

Li numa entrevista sua que Jup do Bairro surge no momento em que começa a procurar entender-se e a explorar seu corpo. De que forma a arte foi, e é, importante para que Jup seja Jup?

Eu comecei a escrever com 13 anos, mas não tinha a pretensão de que aquilo poderia ser poesia ou composição. Era uma espécie de “terapia barata” onde eu conversava comigo mesma para entender o que estava acontecendo com o meu corpo, com a minha mente e daí concluo que mente é corpo e corpo é mente. Eu sempre fui uma criança muito sonhadora e cheia de vontades, mas isso foi se esgotando, o Brasil me fez imediatista, precisando viver e sobreviver no agora. E é aí que a arte entra e me questiona: quando foi que eu deixei de sonhar? Resolvo a reescrever sonhos, vontades e principalmente me reconhecer na contradição. Não são todos os dias que vou me sentir bonita, inteligente, carismática… Muitas vezes posso sentir o contrário disso tudo, e que bom. O corpo vivo é contradição e foi a Jup do Bairro que me mostrou isso. Sinto que Jup do Bairro inventou a Jup Lourenço Mata Pires pois foi a “personagem” que me permitiu performar quem eu sou em vida. Sentir sem saber o que sinto, amar mesmo sem saber o que é o amor e principalmente criar novos repertório sensoriais, isso é um ato de coragem e uma prática de liberdade em se livrar principalmente de quem já fui.

O que é um corpo sem juízo?

Um corpo sem juízo é um corpo que busca se sentir pertencente, pelo menos a si. Um corpo que busca tirar as amarras do juízo judaico-cristão para coexistir sobre sua própria criação. Um corpo coletivo, um corpo que se movimenta, um corpo que não está finalizado, e talvez nunca esteja. É um corpo que projeta futuro como uma extensão do presente e reverência o passado.

E o que pode um corpo sem juízo?

Imaginar o inimaginável. 

Corpo Sem Juízo é um disco pessoal, mas a sua narrativa inscreve-se no coletivo: o corpo sem juízo precisa de estar junto de outros corpos para sobreviver, viver e lutar. Qual o papel do poder coletivo na sua vida e como o chama para este álbum?

Os encontros me movem, me comovem. Preciso vislumbrar um corpo-coletivo, uma espécie de megazord, para criar. O atrito entre pessoas fazem com que criemos uma terceira alternativa possível, e isso se faz presente desde o começo da retomada da minha carreira solo. Em 2019 eu lancei uma campanha de financiamento coletivo para a feitura do meu disco “CORPO SEM JUÍZO” e era um ano caótico. Eleições, muita violência, nosso direitos sendo ceifados, a acessibilidade à cultura e lazer deixando de existir e uma guerra cultural estava estabelecida. E em meio a tudo isso eu questionei como conseguiria o dinheiro para criar e lançar esse disco. Aí que entra o corpo-coletivo. Eu precisei acreditar em pessoas e precisava que essas pessoas acreditassem em mim, no meu trabalho. Consegui bater a minha meta, comecei a produção do disco e em 2020 nos deparamos com a pandemia da COVID-19. Muitas pessoas me falaram pra aguardar esse lançamento pois poderia “flopar” ou que não teria tanto alcance. Eu tive medo, mas lancei, quanto você não se sente só, você geralmente vai com medo mesmo. Eu sou uma artista do presente, que sentir tudo no agora. Faço exercícios para não caducar no ontem amanhã e quero sentir tudo que eu puder sentir e canalizar em criatividade.

Falando um pouco da produção musical de Corpo sem Juízo, assinada por Badsista: o cenário sonoro deste álbum é imenso, do baile funk ao trip-hop à explosão de rap metal de PELO AMOR DE DEIZE. Como descreveria a paisagem musical aqui criada? 

Eu queria apresentar o máximo das referências que me cercaram durante a minha trajetória. Sendo uma residente do Capão Redondo, zona sul de São Paulo, onde dentro e ao longo dos limites da região existem 83 favelas com aproximadamente 29000 domicílios no total, a cultura se faz extremamente presente e diversa. E como nasci no berço do hip hop nacional, o rap já nasce como repertório para os jovens da periferia, assim como o funk e também ritmos nascidos no norte e nordeste do país, já que as periferias de São Paulo contam com grande parte dessa população. Contudo, o rock sempre foi muito presente na minha vida também. Meu pai foi punk sem sua adolescência, flertou com bandas de punk rock e hard core e eu, pasmem, fui emo durante a maior parte da minha infância e juventude. Criando a musicalidade do disco juntamente com BADSISTA e viajando sob nossas influências, CORPO SEM JUÍZO se apresenta com uma versatilidade e uma coragem eclética que se apresenta autojustificada pela sua própria profundidade.

O seu show no Musicbox acontece na madrugada de 24 para 25 de abril. Nessa mesma madrugada em 1974, deu-se a Revolução dos Cravos em Portugal, que derrubou o regime fascista de Salazar. No dia 26 de março, atuou na Lollapalooza Brasil, marcado pela censura a manifestações políticas e cujos alvos de sanção da TSE foram, em nada curioso, Pabllo Vittar e Marina. Como processa esta situação de censura e de opressão de um governo genocida, racista e transfóbico?

O passado e o futuro andam lado a lado. Ao mesmo tempo que caminhamos com políticas afirmativas para a população menos representa na política institucional, o passado se apresentar de uma maneira ainda mais sofisticada e tecnológica para aniquilarem nossos avanços. Não têm sido fácil chegar até aqui. Entre dores, delícias, foram muitos momentos de alegria e também muitos momentos de dor, angústia, melancolia. Isso é bom. Não por ter que passar por tudo isso, mas o nosso tempo pede esses sentimentos atravessados. É muito confuso e estranho considerar esse período como momento de transformação e tudo bem estarmos pessimistas com essa situação, eu estou pessimista. Ser pessimista não significa ser derrotista. O medo pode ser um motor da ficção se tornando fricção. Atenção, sensibilidade e novas possibilidades. E como diz Conceição Evaristo: “Enquanto um olho chora, o outro espia o tempo procurando a solução”.

Por fim, o que esperar do seu Corpo Sem Juízo na estreia em Portugal? 

Estou muito empolgada com esse retorno a Portugal, e agora, com meu projeto solo. Espero que as pessoas sintam, sintam muito, sintam tudo, da mesma forma que senti escrevendo tudo que escrevi. Vamos nos emocionar, rir, nos excitar, dançar, pensar… Todos os sentidos que um corpo sem juízo pode viver.

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